Rostos da CIL
Entrevista com Marta Mucznik
conduzida
por Diana Ettner

Prestes a embarcar rumo a uma nova aventura profissional, não podíamos
deixar escapar a breve passagem desta jovem da CIL por Lisboa para uma breve
conversa. Depois de dois anos a trabalhar para a EUJS (European Union of
Jewish Students), o mundo abriu-se um pouco mais e o American Jewish Committee
é a experiência que se segue. À Marta, que no seu sorriso doce carrega toda a
força da dedicação às causas, desejamos toda a sorte do mundo!
P: Por fazer parte da história de cada um de nós, comecemos por pequenos
relatos da história da tua família. Uma parte da tua família não é de Lisboa –
como foi o percurso dos teus familiares até aqui?
A minha família materna é originariamente da Polónia. Os meus bisavós, pais da
minha avó materna, saíram da Polónia rumo à Argentina no início dos anos 20.
Pararam, no entanto, em Portugal, onde a minha bisavó acabou por falecer. O
meu bisavô, depois disso, acabou por ficar aqui. Os meus avós conheceram-se já
em Lisboa, onde casaram e tiveram os seus quatro filhos: Isaac, Nathan, Liba e
a minha mãe, Esther. Os meus dois tios, cerca de quinze anos mais velhos do
que as suas irmãs, foram para Israel bastante cedo. A minha mãe, tendo partido
uns anos mais tarde, também viveu lá entre os seus 16 e 18 anos, tendo ido
depois para Paris, onde viveu durante cerca de dez anos. Foi nessa cidade que
conheceu o meu pai, tendo ambos regressado a Portugal depois do 25 de Abril.
Eu nasci já em Portugal, em 1977, no Porto. A minha irmã, Sara, nasceu uns
anos depois em Lisboa.
P: Foi em Lisboa que cresceste e foste educada. Como foi crescer na CIL e
de que forma contribuiu essa vivência para a tua identidade judaica?
Eu fui sempre educada em Portugal e a verdade é que até aos meus 5, 6 anos,
não participava em muitas actividades da Comunidade. A partir dos 7 anos, pelo
contrário, com a maior aproximação da minha mãe à CIL, passei a participar
frequentemente nas actividades semanais.
Foi desde esse momento e a partir daí que a minha identidade judaica foi
crescendo e foi-se construindo.
Viver numa Comunidade tão pequena marcou-me muito. Cresci num país com muito
poucos Judeus, onde eu era a única Judia na sala de aula e onde não me sentia
muito à vontade. Não havia jovens Judeus da minha idade, com quem pudesse ir
ao cinema, sair à noite; e os que havia, por os conhecer desde sempre, eram
como família.
P: A participação em actividades da EUJS veio, no entanto, contribuir para
uma maior motivação e para um reforçar da tua identidade judaica.
A primeira vez que fui a uma Summer University (Summer U), o maior evento
anual organizado pela EUJS, senti uma coisa muito especial; senti, na verdade,
o mesmo que qualquer Judeu com uma “chamazinha” lá dentro sente... De repente,
estava com 300 jovens Judeus da mesma idade que eu, que gostavam das mesmas
coisas que eu! Ganhei muita motivação.
P: Como se deu, uns anos mais tarde, a tua ida para Bruxelas e o teu
trabalho, durante dois anos, como Directora Executiva da EUJS?
Em Lisboa, eu tinha tirado o curso de Relações Internacionais durante o qual,
aliás, estudei um ano em Turim, em Itália. Sempre tive, por isso, uma certa
queda para a área internacional. Entretanto, desde a minha primeira Summer U
que continuei a participar nas actividades da EUJS e, inclusivamente, a fazer
parte das equipas de organização de vários eventos. Mas o acontecimento que
realmente marcou a minha entrada no mundo da EUJS foi o convite, feito pela
então Presidente da organização, a Joelle Fiss, para representar a EUJS na
Assembleia Geral do Fórum Europeu da Juventude. A partir daí, o meu interesse
pelo trabalho da EUJS foi aumentando. Do ponto de vista político, ser a voz
dos Jovens Judeus na Europa era algo em que eu acreditava e a que me queria
dedicar. Fui então convidada, mais uma vez pela Joelle Fiss, para ficar no
escritório da EUJS em Bruxelas, e coordenar o projecto chamado “March of
Remembrance and Hope”, um evento organizado para 500/600 jovens do mundo
inteiro e que consiste numa marcha pelos campos de concentração na Polónia,
seguida de uma viagem a Israel. A particularidade desta Marcha, e que é de
realçar, é que estava a ser organizada para Judeus e, sobretudo, para não
Judeus. Depois de mais esta experiência marcante, regressei a Bruxelas, onde
decidi ficar e fazer parte da equipa que ia assumir a direcção da EUJS nos
dois anos que se seguiriam, na qualidade de Directora Executiva. Foi assim que
começou o meu trabalho na EUJS.
P: De todas as experiências que a EUJS te proporcionou, sentes que podes
destacar alguma?
Acho que posso salientar a Conferência da ONU contra o Racismo, que decorreu
em Durban, na África do Sul, em 2000. Dividida em três partes, o Youth Summit,
o NGO Forum e a posterior Conferência Intergovernamental, participei como
delegada no Youth Summit e no NGO Forum. Fiquei muito chocada com o que se
passou ali.
Estavam só representadas minorias, todas diferentes, e chocou-me ver que as
próprias minorias são capazes de ser tão intolerantes e de cometer para com os
Judeus os mesmos erros de que acusam a maioria. Foi mesmo distribuída
propaganda nazi e anti-semita e víamos que nem os responsáveis pela
organização da conferência faziam nada!
P: Segue-se, agora, uma nova aventura. Como surgiu o desafio do American
Jewish Commitee (AJC) e de que forma esta organização te atraiu?
O AJC é uma organização em que acredito muito, acredito sobretudo na forma
como vivem o seu activismo judaico.
É, para mim, uma organização muito especial, diferente das outras, que tem uma
influência enorme e um papel muito destacado no mundo inteiro e que representa
o mundo judaico da forma como acredito que deve ser representado.
Gosto, sobretudo, do facto de terem uma palavra a dizer sobre todos os
assuntos a nível internacional, não deixando passar uma imagem fechada. Acho
que só temos a ganhar se mostramos preocupação com os problemas que nos
rodeiam e com a realidade em nosso redor. O AJC tem, precisamente, essa
vertente, para além, obviamente, do papel importantíssimo que desempenha na
defesa de Israel e do papel diplomático que assume na arena internacional.
Eu estive recentemente nos Estados Unidos, em Nova Iorque e Washington, para
uma espécie de curso de formação e para conhecer o AJC e pude ver toda a sua
influência. Estive lá durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, tendo
participado nas reuniões com Ministros dos Negócios Estrangeiros e Chefes de
Estado organizadas pelo AJC. Por ser portuguesa, fiz parte da delegação de 5
pessoas que reuniu com o Primeiro Ministro Português, Dr. Durão Barroso, com
quem falámos sobre a situação que se vive em Israel e a quem pedimos apoio
para levantar a voz no seio da União Europeia e no contexto da ONU, de forma a
que a União Europeia passe de uma posição abstencionista na votação de
resoluções contra Israel para uma posição de explícito voto negativo. Quanto
ao meu trabalho específico para a AJC, passará por trabalhar no escritório que
esta organização vai abrir em Bruxelas, e que se chamará Instituto
Transatlântico. Os objectivos deste novo projecto do AJC são, por um lado,
alargar o alcance diplomático do AJC perante as instituições europeias,
sobretudo tendo em atenção a política dúbia que, aos olhos do mundo judaico, a
União Europeia parece seguir face a Israel, e, por outro, concentrar-se na
relação transatlântica e triangular entre os Estados Unidos, a Europa e
Israel. É, sem dúvida, um projecto emocionante, em relação ao qual estou
extremamente motivada.